domingo, 8 de julho de 2012


O Grande Golpe da Censura Sobre a Obra de Dias Gomes

Por Vinícius Sylvestre

                                 
Em 1975 Dias Gomes decidiu adaptar para a televisão uma de suas peças proibidas pelo regime militar, “O Berço do Herói”, censurada em 1965. A história trazia a saga do falso santo, Roque Santeiro e a sua fogosa viúva Porcina. A novela entraria nas comemorações dos dez anos da Rede Globo. Pela primeira vez Dias Gomes iria estrear em horário nobre. Adaptando a história para a literatura de cordel, a novela trazia o mais longo título da história da teledramaturgia brasileira: “A Saga de Roque Santeiro e a Incrível História da Viúva que Foi Sem Nunca Ter Sido”. Para protagonistas foram escolhidos Francisco Cuoco (Roque), Lima Duarte (Sinhozinho Malta) e Betty Faria (Porcina). Amplamente anunciada como a próxima trama do horário nobre, que entraria substituindo “Escalada”, a novela já tinha 10 capítulos editados e 30 gravados, quando foi proibida pela censura militar. Numa última esperança de liberar a trama, chegou a ser anunciada pela emissora uma mudança de horário, assim a novela “Gabriela”, grande sucesso da época, que ia ao ar às 22 horas, e já a entrar na sua fase final, passaria para o horário nobre e “Roque Santeiro” estrearia às 22 horas. Mas a censura voltou atrás na liberação e proibiu de vez a novela de ir ao ar, alegando que ela era ofensiva à moral e aos bons costumes, ofendendo à igreja e aos princípios católicos. Diante da catástrofe, Janete Clair criou personagens para 90% do elenco da novela censurada, aproveitando-o na mítica “Pecado Capital”. “Roque Santeiro” ficaria dez anos na gaveta até que uma nova versão, em 1985, fosse ao ar.
                                                        http://youtu.be/qBfe_Ifq6Kg 
                                                        http://youtu.be/Id_7PYPSsqA
  
A proposta de "Roque Santeiro" era justamente esta: O mito com os prós e contras de sua existência, as superstições de um povo e o grande número de lendas criadas em torno deste fenômeno social foram reunidos por Dias Gomes em Roque Santeiro. Dias, há muito vinha preocupado com esse problema, e esperava apenas "a oportunidade de levá-lo ao ar em forma de crônica de uma cidade do interior". E esta oportunidade chegou com novas responsabilidades para o autor, que escreve pela primeira vez para as vinte horas e, novamente, estréia a cor em mais um horário da Globo.
Sobre o horário, Dias não acreditava que "existam padrões de conveniências estabelecidos pela emissora. Existem, sim, determinações que a levam a seguir determinado comportamento que, erradamente, a meu ver, muitos chamam de filosofia de horário. A mim, foi pedido que escrevesse uma novela na linha das produções anteriores sem me preocupar com qualquer outra circunstância. Assim, iniciei Roque Santeiro, na qual não admitirei nenhuma repressão. Pelo contrário. Já cheguei a sugerir que, em caso de haver necessidade de alterar o roteiro de Roque, a medida mais indicada será retirar a novela do ar".

                                          
  Sobre a história, Dias pretendia "apenas colocar em discussão a vantagem ou não de se cultivar o carisma de um mito fabricado por um ato de indiscutível bravura". Como em todas as novelas suas não haverá graduação entre os personagens. "Todos serão dimensionados de acordo com sua importância para o conjunto, tanto que, as tramas paralelas, de modo geral, convergirão para o centro de interesse da história. A novela se desenvolve em dois períodos. O passado, com todo um levantamento da vida de Roque Santeiro, e o presente, quase conjugado com o futuro, pois mostrará todo o processo decorrente e conseqüente da exploração econômica e social de Roque."

Dezessete anos antes do desenrolar da história, Roque Santeiro, jovem artesão, é trucidado barbaramente por um grupo de cangaceiros que invadiu a cidade imaginária de Asa Branca, no norte da Bahia, próximo a Pernambuco, a fim de saqueá-la. A população, desesperada, não hesitou em se render às exigências dos cabras. Apenas Roque resistiu o quanto pôde, só parando quando foi dominado e estraçalhado. Por isso, Roque virou lenda, mito e padrinho de muitos em Asa Branca. Atraído pela fama do mito, chega a Asa Branca um grupo de artistas do Rio para filmar A Incrível História de Roque Santeiro e de Sua Fogosa Viúva, a Que Era Sem Nunca Ter Sido. Assim, com referência ao passado do herói, a novela se situa por volta de 1973, com Asa Branca enriquecida depois de toda a especulação em torno de seu mito. Há o Zé das Medalhas, por exemplo, que prosperou graças às medalhas e demais efígies que passou a produzir utilizando a imagem de Roque Santeiro. E o Sinhozinho Malta, antigo coronel de Asa Branca, que enriqueceu como pecuarista, explorando o comércio de carnes e tantos outros.

 Roque Santeiro é uma composição sobre o interior brasileiro e a malograda aventura de um escultor popular. É a pureza do homem do campo aliada à sagacidade e natural inventiva de nosso camponês. É, ainda, um estudo sobre a psicologia individual e grupal desta constante da presença de um líder, digamos, espiritual. Uma ficção até certo ponto, tratada de maneira fantástica em que, acima de tudo, importa marcar a nítida influência do fenômeno sociológico que é o mito." Para elaborar a sinopse e os primeiros capítulos da novela, Dias Gomes, além de observações pessoais semelhantes às que fez em Fátima, Portugal, quando de sua última viagem à Europa em companhia de sua mulher, Janete Clair, pesquisou sobre artesanato, cunhagem de medalhas, frisadoras, tornos, indústrias domésticas e indústrias de vulto, como a da carne e todo o seu complexo (frigoríficos, circulação, exportação). Para a montagem dos cenários exteriores de Asa Branca será utilizada toda a infra-estrutura já existente em Barra de Guaratiba, onde está sendo gravada Gabriela. Assim, serão duas cidades inteiramente preparadas pela Rede Globo, que pretende mais tarde criar em Guaratiba uma nova sede de estúdios de novelas.

DÊNIS CARVALHO ERA A NOVIDADE DO GRANDE ELENCO


Dênis Carvalho em dois momentos distintos de “Roque Santeiro”, acima em cena com Betty Faria (Porcina). abaixo com: Theresa Amayo (Mocinha) e Waldir Maia (Professor Astromar).


Como toda novela em fase de produção, o elenco de Roque Santeiro foi alterado diversas vezes. Primeiro, as dúvidas foram sobre quem viveria Matilde. Foram cogitadas Tereza Rachel, Norma Bengell e Darlene Gloria antes de Rosamaria Murtinho.

Depois, foram sobre o personagem que faria o Roque no filme sobre sua vida. Depois da negativa de Paulo José, pensaram em Jece Valadão, Reginaldo Farias e Mílton Morais, Agora, será Dênis Carvalho, que assinou contrato com a Globo. Estavam confirmados no elenco: Milton Gonçalves, Emiliano Queirós, Elisângela, Lutero Luís, Luís Armando Queirós, André Vali, Sandra Barsotti, Catulo de Paula, Lady Francisco, Teresinha Amayo e Eva Todor, entre outros.

                                          


 

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